Boletim do Empreendedor

Boletim mensal - nº 53 - Ano 3 - Junho/2010

Empreendedorismo

Nova modalidade de investimento para empresas nascentes

Empresários com bons projetos guardados na gaveta por falta de recursos para implantação já podem buscar apoio nos investidores de risco. O capital semente (ou seed money, do original em inglês) pode ser a solução para empresas do setor de tecnologia e inovação em estágio inicial e com alto potencial de crescimento. Para os empreendimentos que puderem projetar retorno interessante aos investidores, há recursos de sobra que podem ser usados para certificar tecnologias, contratar equipe e ingressar no mercado. Por ser uma operação de alto risco, para ter acesso a esse tipo de capital, não basta a empresa evoluir percentualmente: é preciso crescer em vezes. O valor de cada investimento, em média, é de R$ 1 milhão, e quem oferece são instituições que operam fundos de capital de risco, como BNDES e Finep, além de investidores particulares, os chamados anjos. Atualmente, esse mercado movimenta mais de R$ 16 bilhões, voltados a boas oportunidades de negócios, e pelo menos 10% das operações são de capital semente, de acordo com o Censo Brasileiro da Indústria de Private Equity e Venture Capital, realizado em 2006 pela Fundação Getúlio Vargas.

O empreendedor precisa atender a uma série de parâmetros analisados pelos investidores para se habilitar a receber investimentos de capital semente - em média, de cada dez projetos analisados, apenas um recebe aporte. O plano de negócios precisa provar que a empresa tem vantagens competitivas e possibilidade de registrar patentes, além de mostrar se o produto é flexível para se defender dos concorrentes e se o mercado em que atua está em ascensão. O potencial humano também é analisado. Como as operações pressupõem contato direto com o investidor, é preciso afinidade entre ambos, e o empresário deve provar que tem condições de tirar o projeto do papel e gerar resultados significativos. No ano passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou um fundo de investimento de capital semente, o Criatec, com orçamento de R$ 80 milhões a serem investidos ao longo de quatro anos. A perspectiva do banco é de injetar recursos em até 60 micro e pequenas empresas inovadoras, com investimento médio entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão. As empresas apoiadas devem ter faturamento líquido anual de, no máximo, R$ 6 milhões, e pelo menos 25% do fundo será destinado a empresas com faturamento de até R$ 1,5 milhão.

"Trabalhar com empresas nascentes é ainda muito incipiente na cultura de venture capital no Brasil. Como reconhecemos a importância dessas empresas na inovação da indústria brasileira, pensamos em montar uma estrutura financeira, com ação de Estado, para mostrar a viabilidade desse tipo de instrumento", diz Pedro Duncan, chefe do departamento de Investimentos em Fundos do BNDES. Das 60 empresas que devem ser apoiadas pelo fundo, a instituição espera alta rentabilidade em pelo menos dez. O primeiro aporte, de R$ 3,2 milhões, foi feito em dezembro. Quatro projetos já têm possibilidade de investimento, e a previsão é aplicar recursos em até dois negócios por mês. Os projetos podem ser apresentados na página da internet do fundo, no endereço www.fundocriatec.com.br . Para a BRy Tecnologia, contemplada com investimentos de capital semente, o recurso permitiu embalar melhor os produtos, participar de feiras, fazer viagens, visitar clientes potenciais e contratar recursos humanos de melhor qualidade. A empresa, criada em 2001, recebeu o aporte de R$ 1,5 milhão em 2002, e investiu em desenvolvimento de produtos e estruturação comercial e de marketing. Em troca, o investidor recebeu dividendos e participação acionária.

"Esse recurso possibilitou um impulso na atividade empresarial e uma tranqüilidade nem sempre presente em empreendimentos iniciais. Agora, nossa perspectiva é ser a principal empresa de tecnologia em segurança da informação do Brasil", diz Carlosoberto De Rolt, acionista e fundador da BRy Tecnologia. A empresa desenvolve produtos e serviços para garantir segurança em documentos eletrônicos, como assinatura digital, chaves públicas e nota fiscal eletrônica. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) também opera um fundo específico para capital semente desde o final de 2006. O programa Inovar Semente deve injetar cerca de R$ 300 milhões durante os seis anos previstos para a atuação do fundo. A verba é destinada a empresas inovadoras de base tecnológica com faturamento líquido de até R$ 2,1 milhões. Os investimentos também variam entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão.

De acordo com Janaína Nascimento, do Departamento de Investimentos em Fundos da Finep, o apoio gera impacto significativo na inovação brasileira, principalmente na comercialização de tecnologias produzidas nas universidades. "Investir em inovação também aumenta nossa competitividade, principalmente em relação ao comércio exterior. Você gera riqueza a partir do conhecimento, e esses empreendedores formam novos negócios, desencadeando um ciclo virtuoso para a economia brasileira", diz. Para investidores privados que quiserem injetar dinheiro no fundo, a Finep oferece mecanismos de liquidez e garante o retorno do valor aplicado ao final da atuação do fundo. A meta da financiadora é criar 24 fundos com patrimônio de R$ 10 milhões cada. Este ano, a perspectiva é lançar dois fundos ainda no primeiro semestre e outros dois no segundo semestre.

Quem aplica recursos em capital semente está em busca de alto retorno financeiro e também disposto a correr riscos elevados, pois investe em idéias novas, cuja viabilidade ainda precisa ser testada. A média histórica comprovada em experiências internacionais mostra que apenas 20% dos negócios investidos têm retorno extremamente relevante. Na maioria dos casos (50%), o investimento é apenas recuperado, e em 30% dos negócios o investidor perde todo o dinheiro que aplicou. Segundo Fábio Bellotti, da São Paulo Anjos, associação de investidores criada em junho de 2007, não é fácil fazer a escolha certa. O grupo seleciona projetos com grande potencial de crescimento e realiza fóruns para aproximar investidores e empresas. O primeiro deles teve 35 projetos candidatos, mas apenas três foram pré-aprovados para participar. "Para acertar o alvo, temos que ser muito seletivos, e isso também não garante que acertemos.

Trabalhamos com a perspectiva de ter uma posição minoritária na empresa e, depois de cinco anos, retirar de cinco a oito vezes o valor investido", diz. Em 2008, a previsão é realizar mais dois fóruns para investidores, um por semestre, com a apresentação de três ou quatro projetos em cada. O grupo é formado por 30 associados e atua apenas no Estado de São Paulo. Bellotti explica que a proximidade é fundamental, porque o anjo gosta de participar do processo. "Também somos empreendedores, temos prazer em bolar o projeto e tirá-lo do papel. Sem dúvida, tem um risco maior, mas um retorno mais interessante, porque no início o valor injetado é mais baixo", diz. Os investimentos ainda estão em fase de estudos e, assim que forem concretizados, a associação deve buscar mais sócios e manter o patamar de capacidade financeira.

Requisitos

Para participar dos fóruns realizados pela São Paulo Anjos, o empresário deve fazer contato com a associação e responder a cinco perguntas básicas sobre o produto, os clientes, os concorrentes, o mercado em que pretende atuar e seu perfil pessoal. Se as respostas atenderem aos requisitos, o empreendedor é chamado para uma sabatina de duas horas e, se ainda houver interesse de ambas as partes, o empresário passa por um período de acompanhamento para aperfeiçoar o plano de negócios e estruturar a apresentação que fará no fórum. Caso haja interesse de algum investidor, a negociação passa a ser direta. A empresa Wiaxis buscou recursos de capital semente mais interessada em contatos do que pela necessidade de dinheiro. Criada em 2004, a empresa desenvolve tecnologia para viabilizar transações eletrônicas e financeiras em terminais móveis, aparelhos celulares, smart phones e PDA. "Só decidimos procurar capital de risco quando a empresa já estava viabilizada.

O que buscamos agora é o networking dos investidores para acelerar o crescimento e nos ajudar a chegar mais rápido às maiores redes de captura de transações financeiras do País", diz Leonardo Rochadel, sócio-fundador da empresa, que já tem na carteira clientes como a American Express e outras 15 operadoras de cartões de crédito. A perspectiva de crescimento da Wiaxis se enquadra no padrão buscado pelos investidores de capital semente. O faturamento da empresa deve saltar de R$ 1 milhão, estimado em 2008, para R$ 92 milhões, em cinco anos. A empresa negocia R$ 2,3 milhões com cinco investidores, e a operação deve ser concluída em seis meses. Os recursos serão utilizados para contratação de pessoal em Florianópolis - sede da empresa - e em São Paulo, nos setores de vendas e marketing. A meta é atingir o mercado europeu em 2010 e o norte-americano em 2012.

Para Erich Muschellack, um dos principais investidores anjo do Brasil e presidente do fundo Idee, investir em capital semente é um ótimo negócio. Nos últimos quatro anos, sua empresa já investiu cerca de R$ 30 milhões em cinco empresas de inovação tecnológica com potencial de competitividade global. Mas é preciso ter paciência. Até o momento, segundo ele, duas empresas já têm faturamento, e apenas uma delas atingiu o ponto de equilíbrio econômico. Outras duas devem começar a faturar somente este ano, e a quinta ainda está desenvolvendo a tecnologia. Como são operações de longo prazo, Muschellack ainda não tem como avaliar qual será o resultado de seus investimentos, mas aposta bastante nas duas empresas que ainda estão em fase de desenvolvimento. "Construir empresas bem estruturadas e com bom potencial de mercado é uma atividade muito gratificante, pois gera empregos, ajuda no desenvolvimento do País e pode ser muito lucrativa em longo prazo. Com o capital semente, consigo prover esta oportunidade aos empreendedores e também participar dela. Pessoalmente, acho esta atividade muito divertida", diz ele, destacando que a maioria dos milionários que surgiram em 2007 conquistou esse status por meio da criação de empresas.

Fundos governamentais

INOVAR SEMENTE

CRIATEC

Instituição: Finep

Instituição: BNDES

Orçamento previsto: R$ 300 milhões

Orçamento disponível: R$ 80 milhões

Investimento médio: R$ 500 mil a R$ 1 milhão

Investimento médio: R$ 500 mil a R$ 1 milhão

Foco: empresas inovadoras de base tecnológica

Foco: micro e pequenas empresas inovadoras

Faturamento líquido máximo: R$ 2,1 milhões

Faturamento líquido máximo: R$ 6 milhões



Fonte: Empreendedor - Francis França

(Os textos apresentados neste Boletim são extraídos das fontes citadas ao final de cada matéria, cabendo as fontes apresentadas o crédito pelas mesmas). 

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